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Psoríase, uma nova era no tratamento

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Remédios de última geração prometem controlar melhor a doença que afeta pele, cabelo, articulações… Saiba o que é psoríase e como se tratar hoje em dia

Um revólver de tiro certeiro. Esta é a metáfora usada pelo dermatologista André Carvalho para se referir aos novos remédios contra a psoríase, que causa vermelhidão, descamação e placas na pele em cerca de 5 milhões de brasileiros. Recém-aprovados para chegar às farmácias do país, esses medicamentos, injetáveis, pertencem à classe dos biológicos, isto é, são produzidos a partir de células vivas cultivadas em laboratório. O tiro certeiro tem como alvo moléculas inflamatórias que estão na origem das lesões cutâneas.

Fazem parte desse arsenal medicações que, em comum, têm princípios ativos de nomes cabeludos. Em maio, começa a ser vendido o ixequizumabe, do laboratório Lilly. O guselcumabe, da Janssen, também já foir aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A dupla dividirá espaço com o secuquinumabe, da Novartis, já em uso no país.

A tecnologia dos biológicos começou a ser empregada contra a psoríase por aqui ainda em 2006, com fármacos destinados só a estágios avançados. Mas a nova geração, segundo os entendidos, traz uma vantagem sobre os precursores: a precisão. “Os primeiros biológicos agiam como uma granada, acertando o alvo, mas provocando estragos no entorno”, compara Carvalho.

Já o trio citado há pouco ataca diretamente proteínas ligadas às manifestações da doença – as interleucinas 17 e 23 – sem abalar as defesas do corpo. Essa mira precisa não só propicia um controle mais efetivo e duradouro da situação como evita que as quedas na imunidade piorem os próprios sintomas. É um alívio e tanto para quem tem de lidar com as lesões na pele e as demais repercussões em outros órgãos, algo que impacta a autoestima e a qualidade de vida.

A animação dos profissionais e pacientes diante dos novos fármacos se ampara em dados científicos. Nos testes clínicos do guselcumabe, por exemplo, a injeção subcutâneareduziu, em quatro meses, 90% dos sinais da psoríase em 70% das quase 2 mil pessoas tratadas. “Em quatro semanas já era possível notar uma resposta significativa”, destaca Telma Santos, diretora médica da Janssen no Brasil.

A medicação da Lilly também obteve resultados expressivos. Em 13 meses, logrou a remissão da doença em mais da metade dos 3 800 pacientes avaliados pelo mundo. No mesmo período, 80% dos voluntários tiveram uma melhora de pelo menos 75% das lesões – o efeito da medicação também já podia ser notado nas primeiras doses.

Mas um dos aspectos mais celebrados foi a descoberta de que os ganhos se mantinham no longo prazo. Com os dois medicamentos, boa parte dos indivíduos gozou da redução dos sintomas entre um ano e meio e dois anos. “Os estudos refletem o que vemos na prática em locais onde a medicação já está sendo usada, como Estados Unidos, Japão e Europa”, conta Livia Gonçalves, gerente médica da Área de Imunologia da Lilly.

Outro chamariz da nova geração dos biológicos é que seu uso não está associado ao aumento no risco de tuberculose, um efeito colateral dos primeiros remédios do gênero – falamos dos anti-TNF, que inibem um grupo de substâncias inflamatórias. Tais remédios podem favorecer a reincidência da doença pulmonar causada por bactérias em pessoas com histórico da infecção.

E isso preocupa por aqui uma vez que a tuberculose é endêmica em algumas regiões do Brasil. Cabe ponderar, contudo, que os anti-TNF continuam bons aliados no tratamento da psoríase e de suas manifestações nas articulações. “É possível um paciente zerar a psoríase tomando um anti-TNF”, observa Caio Castro, coordenador da Campanha Nacional de Psoríase da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Aproveitando a deixa, é preciso esclarecer que as medicações mais modernas não substituem de primeira as terapias tradicionais. Conforme o Consenso Brasileiro de Psoríase, a primeira opção no tratamento deve ser a fototerapia, na qual o paciente recebe radiação ultravioleta nas lesões em pelo menos 20 sessões.

Se necessário, parte-se para os remédios sintéticos, comprimidos com diferentes mecanismos de ação. Aliás, na mesma leva de aprovação dos últimos biológicos, foi liberado no mercado brasileiro o apremilaste, do laboratório Celgene – ele vem ampliar o leque de medicações de uso oral para a psoríase.

Quando eles não dão conta do recado, aí, sim, o médico prescreveria os biológicos. Casos mais leves, por sua vez, até podem ser tratados com hidratantes e pomadas, mas essa estratégia isolada tem sido cada vez mais rara devido ao caráter sistêmico da doença.

A barreira do preço

No país, a indicação dos biológicos para domar a psoríase fica mais restrita aos casos severos. O motivo, no entanto, não é médico, mas econômico. De acordo com a Anvisa, um anti-TNF mais em conta custa ao redor de 1 400 reais, enquanto os da nova geração variam entre 4 mil e 34 mil, dependendo da dosagem e da forma de apresentação (injeção, caneta aplicadora…).

“No mundo ideal, começaríamos pelos biológicos porque eles têm muito menos efeitos colaterais”, afirma Castro. Porém, no mundo real, o custo elevado dificulta que essa conduta vire realidade.

Hoje o Sistema Único de Saúde (SUS) cobre gratuitamente o tratamento com biológicos apenas para quem tem artrite psoriática, uma das manifestações mais limitantes da doença. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), por sua vez, os planos de saúde não estão obrigados a custear esses remédios, a menos que a aplicação ocorra durante uma internação. O jeito acaba sendo recorrer à Justiça, que costuma autorizá-los nos casos de falhas ou reações adversas das drogas tradicionais.

Com, então, se trata a psoríase hoje em dia

Hidratação: cremes hidratantes sem perfume são indicados para evitar o ressecamento da pele. Se a psoríase afeta o couro cabeludo, xampus especiais entram em cena.

Fototerapia: além dos banhos de sol, existem equipamentos que emitem raios UV e modulam a atividade das células para que a pele não vire refém do autoataque das defesas.

Comprimidos: medicamentos de uso oral são destinados a coibir o processo inflamatório que culmina no aparecimento de descamação, vermelhidão, coceira e placas na pele.

Biológicos: remédios injetáveis de uso mensal e bimestral que miram moléculas inflamatórias envolvidas na psoríase. A nova geração é ainda mais precisa e efetiva.

Psoríase não é só uma doença de pele

Para os especialistas, os órgãos reguladores deveriam ampliar o acesso aos biológicos. Isso porque, sabe-se hoje, a psoríase vai além da pele. “Há todo um efeito em cascata a partir da inflamação. A lesão na pele é a ponta do iceberg”, explica a dermatologista Regina Carneiro, professora do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade do Estado do Pará.

O mesmo processo inflamatório que leva à descamação da pele pode, por exemplo, comprometer as articulações. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 34,7% dos pacientes com a doença desenvolvem artrite psoriática.

Além disso, outras condições são mais comuns nos portadores do que no restante da população, caso de distúrbios intestinais e hepáticos e a síndrome metabólica, uma coleção de fatores inimigos do coração.

Por falar em coração, estudos relacionam a psoríase, especialmente se o quadro não é tratado direito, a um maior risco cardiovascular. Culpa das moléculas inflamatórias que, se de um lado incitam as lesões na pele, do outro contribuem para o entupimento das artérias. Segundo André Carvalho, pacientes com psoríase grave encaram, desde cedo, uma probabilidade elevada de sofrer com a doença cardiovascular antes dos 65 anos. Isso só reforça a necessidade de seguir à risca o tratamento e hábitos saudáveis.

Além do impacto no corpo, a psoríase não raro maltrata a mente. As pesquisas indicam que o convívio com a doença é capaz de predispor à ansiedade, à depressão e ao ganho de peso. “As substâncias liberadas durante o processo inflamatório da psoríase também estão relacionadas com a obesidade, e até a depressão pode ter esse vínculo”, diz Regina. Tais repercussões são agravadas pelo isolamento social e pela redução das atividades em meio às crises.

A preocupação com o estado mental e a qualidade da rotina já é tão levada em conta que, ao medir a gravidade do quadro, o médico não considera apenas os danos à saúde. O paciente também tem de responder a questionários que avaliam o impacto na vida social.

Exemplo de pergunta: deixou de usar alguma roupa ou sentiu desconforto em locais públicos por causa das marcas na pele? “Às vezes a pessoa pode até ter poucas lesões cutâneas, mas possui uma baixa qualidade de vida”, nota Regina.

Mas quais são os sintomas na pele da psoríase?

A psoríase provoca descamação, vermelhidão, coceira e placas principalmente em:

  • Couro cabeludo
  • Cotovelos
  • Joelhos
  • Unhas
  • Axilas
  • Virilha

Em geral, os dois lados do corpo são afetados. Se notar algo parecido, é bom bater um papo com o dermatologista.

Em paz com o corpo

O fato é que a parceria com o médico, a adesão ao tratamento e alguns cuidados suavizam e muito o convívio com a psoríase. No consultório, é provável que o profissional fale de certas precauções diante de remédios para outras enfermidades. Alguns anti-hipertensivos, anti-inflamatórios e fármacos para transtornos psiquiátricos, como lítio, costumam ser contraindicados.

Os próprios corticoides, usados para sanar perrengues que envolvam inflamação, podem trazer problemas na dose errada. “Se o paciente tomar uma injeção de cortisona, por exemplo, poderá ter um efeito rebote e piorar a psoríase”, alerta Castro. Não tem jeito: a prudência manda acompanhar de perto e conversar sempre com o médico.

Um estilo de vida equilibrado, claro, só traz vantagens. Já existem fartas evidências de que cigarro, bebidas alcoólicas e estresse demais agravam os sintomas. Até a alimentação tem um papel aqui, ainda mais se lembrarmos que a psoríase está ligada ao maior risco de ganho de peso.

Com a pele em si, convém evitar banhos demorados e quentes, que ressecam esse tecido e favorecem a descamação e as lesões. Nesse sentido, hidratantes (sem perfume) viram aliados no dia a dia. Fora das crises, a exposição ao sol em horários indicados pelo dermatologista é bem-vinda. Ao combinar o autocuidado com o tratamento prescrito, as chances de sucesso só crescem. E a nova geração de remédios biológicos vem chegando para tornar mais rápido e sustentável o cumprimento dessa missão.

Cuidados com a pele no dia a dia

Hidrate-se: muita água e sucos de fruta ajudam a evitar o ressecamento.

Exercite-se: atividade física regular modula a imunidade e aplaca o estresse.

Tome sol: ele é ótimo fora das crises. Mas tem que se expor até as 10h ou após as 16h.

Coma peixe: pescados são fonte de ômega-3, gordura com propriedades anti-inflamatórias.

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A psoríase pode ser confundida com:

Dermatite: não é simétrica como a psoríase e ocorre mais na parte interna das dobras.

Caspa: essa manifestação, mais comum, não gera vermelhidão no couro cabeludo.

Micose: as manchas nas unhas são menos espessas ou em áreas delimitadas.

Artrose: as juntas ficam mais rígidas sobretudo pela manhã. Na psoríase não é assim.

Fontes: Murilo Drummond, dermatologista e professor titular do Instituto de Pós-Graduação Carlos Chagas (PR); Clarissa Prati, dermatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio Grande do Sul

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Saúde

Telemedicina: a ferramenta para melhorar o atendimento genético no Brasil

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No Brasil, a telemedicina tem enorme potencial de trazer equidade, principalmente na área da genética

No Brasil, existe um geneticista para cada 700 mil habitantes. (iStock/Getty Images)

Há poucos dias, o Conselho Federal de Medicina (CFM)  publicou a Resolução 2.227/18, com novas normas para uso da telemedicina no Brasil. Se for usada para permitir acesso à saúde para quem não tem, não há dúvida que a telemedicina é um caminho sem volta no mundo todo. No Brasil, país continental com enorme disparidade na quantidade e qualidade do atendimento médico, a telemedicina tem enorme potencial de trazer equidade.

O parágrafo terceiro do artigo quarto desta resolução do CFM diz que “a relação médico-paciente de modo virtual é permitida na cobertura assistencial em “áreas geograficamente remotas”, desde que existam as condições físicas e técnicas recomendadas e profissional de saúde”. De fato, a telemedicina foi originalmente criada como uma forma de atender pacientes situados em locais remotos, longe das instituições de saúde ou em áreas com escassez de profissionais médicos.

É fácil imaginar que quanto mais remota a localização de uma cidade num país de mais de 8 milhões de metros quadrados, menos acesso a medicina haverá, em especial no que se refere a acesso ao atendimento por especialistas. Nestes rincões, em tese, a Telemedicina seria ainda mais útil.

Genética médica

Neste sentido, uma outra publicação recente do CFM, a quarta edição do estudo “Demografia Médica”, traz dados importantíssimos sobre o número e a distribuição de médicos no Brasil, e, portanto, nos dá grandes dicas sobre quais locais e para atendimento de quais especialidades médicas a telemedicina poderia ser mais benéfica.

Estima o estudo que, ao final do ano que vem, o Brasil já terá ultrapassado meio milhão de médicos. Das dezenas de especialidades médicas qual seria aquela com menos profissionais titulados no Brasil? Lendo a “Demografia Médica” a resposta é fácil: genética médica! Apenas 305 profissionais titulados (0,1% do total de especialistas, um geneticista para cada 700 mil habitantes!).

Outro aspecto importante revelado na “Demografia Médica”: a velocidade de entrada de novos médicos geneticistas no mercado de trabalho brasileiro sempre foi e continua sendo muito pequena. No ano de 2017 haviam apenas 41 médicos se especializando em Genética. E por último, segundo dados da própria Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, a grande maioria dos médicos geneticistas brasileiros atendem apenas nas capitais, com grande concentração no Sul e Sudeste.

Neste contexto, poderíamos dizer que apenas 0,7% dos municípios brasileiros (40 entre 5.570) contam com o atendimento presencial de médicos geneticistas. Como podem observar, o conceito de “áreas geograficamente remotas” pode ter interpretação diferente quando o referencial é a presença ou não de médico geneticista no local, comparado com outros especialistas médicos.

Ampliação da telemedicina

Os argumentos demográficos explicitados acima já seriam mais do que suficientes para deixar claro que é no atendimento em Genética Médica especialidade que lida com pessoas com doenças raras, que o brasileiro mais se beneficiaria se, respeitando as novas regras do CFM, vários Centros de Telemedicina com foco em Genética fossem estruturados no Brasil, sob a coordenação de médicos geneticistas.

Mas ainda há pelo menos mais duas razões para ampliar a Telemedicina em Genética no Brasil; uma se refere a raridade de cada uma das doenças genéticas, que faz com que o conhecimento médico e da própria população sejam extremamente escassos neste campo, levando com frequência a verdadeiras “odisseias diagnósticas”, que incluem o deslocamento de pacientes e familiares, várias vezes, por milhares de quilômetros de distância em busca de um diagnóstico e tratamento – a telemedicina pode reduzir isto dramaticamente.

Já a segunda se refere às peculiaridades do atendimento em genética, isto porque parte das atividades de um médico geneticista, em especial aquelas que podem atingir a maior parte da população e prevenir o surgimento de várias doenças genéticas (que por sinal são incuráveis), se refere à atenção primária, que é justamente a mais fácil de ser realizada à distância. Transmissão de informações em larga escala através de telemedicina, sobre medidas simples, efetivas e de baixo custo, poderiam fazer uma verdadeira revolução na prevenção de deficiência intelectual, anomalias congênitas, enfim, das doenças raras como um todo no Brasil.

Elenquei este conjunto de atitudes de Atenção Primária em Genética em outra matéria do “Letra de Médico”, intitulada “Como o Brasil deveria promover a saúde genética para sua população“.

Aconselhamento genético

O aconselhamento genético, que inclui a maior parte da atividade do médico especialista em genética, é uma poderosa ferramenta de prevenção primária de doenças genéticas. Trata-se de um processo profissional caracterizado principalmente pela troca de informações entre equipes de profissionais multidisciplinar coordenadas por médicos geneticistas, e pacientes e seus familiares, pelo qual se almeja ajudar as pessoas a entender e se adaptar às consequências médicas, psicológicas e familiares da contribuição genética na causa das doenças.

Entre outros aspectos do aconselhamento genético, destaca-se a comunicação de informações a respeito de problemas associados com o acontecimento prévio ou atual, ou com o risco de repetição de uma doença genética na família, através do qual pessoas e seus parentes que tenham ou estejam em risco de vir a ter uma doença genética são informados sobre as características da condição, a probabilidade ou risco de desenvolvê-la ou transmiti-la para os filhos, e o que pode ser feito para minimizar suas consequências ou prevenir a ocorrência ou repetição.

Centros de telemedicina em genética

Sendo eminentemente um processo de comunicação, boa parte poderia ser realizada a distância, contanto que em uma das pontas estivesse um profissional treinado em genética médica. Chamo a atenção que mesmo o reduzido número de médicos geneticistas no Brasil (300), seria suficiente para, através da telemedicina, irradiar informação de ótima qualidade para o país todo. Imaginem a revolução que ocorreria se o Governo brasileiro escolhesse uma cidade no interior e a capital de cada Estado para abrigar um Centro de Telemedicina em Genética, e contratasse médicos geneticistas para coordenar cada um destes Centros?

Além de ampliar o mercado de trabalho enormemente e atrair mais estudantes de Medicina a se especializarem em Genética, o custo de implantação destes centros seria pequeno, pois, no que se refere ao atendimento pelo serviço público, poderiam ser aproveitados os investimentos já feitos em instituições como a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, que visa apoiar o aprimoramento de projetos em telemedicina já existentes e incentivar o surgimento de futuros trabalhos interinstitucionais), e TELESSAUDE BRASIL (Programa Nacional de Telessaúde Aplicado à Atenção Primária), respectivamente dos Ministérios da Ciência e Tecnologia e da Saúde.

Estes dois programas são excelentes, porém não tem o foco no contato direto com a população, mas sim indireto através de quem atende a população. Haveria necessidade de ampliação deste paradigma com foco direto na população. Na realidade, já existem inúmeras iniciativas de uso da telemedicina para aconselhamento genético em vários locais do mundo e até mesmo no Brasil, diretamente voltados aos pacientes. O País de Gales foi o pioneiro há mais de duas décadas, mas é no Canadá, Austrália e EUA, países que assim como o Brasil tem tamanhos continentais e áreas pouco povoadas, que as experiências com telemedicina aplicada a Genética têm tido maior sucesso.

Telemedicina no Brasil

No Brasil há muitos anos a telemedicina já é utilizada para transmitir informações a população sobre uso de medicações, drogas, infecções na gravidez, através de uma rede gratuita de informação sobre agentes teratogênicos. É utilizada também, gratuitamente, para suporte a profissionais e estudantes que atuam na Atenção Primária à Saúde em relação às questões que envolvam genética médica. Telemedicina em genética é utilizada no país para repassar informações a população sobre erros inatos do metabolismo através do programa SIEM.

Recentemente a Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica elaborou em conjunto com o CFM uma série de videoaulas para educação médica continuada em genética médica. Telemedicina já foi usada com grande sucesso pelo Médico geneticista Pablo Domingos Rodrigues De Nicola, sob a orientação do Médico Geneticista Decio Brunoni, para avaliar e melhorar a qualidade da notificação dos defeitos congênitos na Declaração de Nascido Vivo em quatro maternidades públicas.

Não só as novas normas no CFM podem ampliar exponencialmente estas iniciativas, mas porque não dar acesso através da telemedicina às pessoas que moram nos 99,3% dos municípios brasileiros nos quais simplesmente não há um único médico geneticista?

Etapas importantes do atendimento de genética médica como a entrevista médica (anamnese), parte do exame físico utilizando as maravilhas tecnológicas que o avanço da telemedicina nos traz, as etapas de solicitação de exames complementares quando necessários (incluindo avaliação pré e pós exames), a interpretação do resultados destes exames, a orientação para busca de auxílio junto às ONGs de familiares com determinadas doenças genéticas, a transmissão de informações iniciais sobre condutas terapêuticas e sobre riscos de repetição daquela patologia em futuras gestações do casal, as alternativas reprodutivas para lidar com estes riscos, são todos processos fundamentais do Aconselhamento Genético que poderiam ser feitas com auxílio da telemedicina.

Ou mais ético seria deixar a grande maioria da população brasileira desassistida por não ter acesso ao atendimento presencial?

Não se trata de abandonar o atendimento presencial, que deve ser prioritário sempre que possível, mas de dar uma chance a quem não tem acesso a ele. Que no caso da genética no Brasil, é a grande maioria da população.

Telemedicina na genética

A Telemedicina poderia ser ainda utilizada, no escopo da genética médica brasileira, para;

  • Triagem dos pacientes com doenças de possível causa genética nos postos de saúde reduzindo o número de consultas hospitalares e deixando estas exclusivamente para quem realmente precisa de atenção terciária, assim como para definir quem sãos os pacientes que devem ter prioridade no atendimento terciário;
  • Teleinterconsulta: orientação por médicos geneticistas a outros médicos não-geneticistas em seus cuidados com pacientes com doenças genéticas, por exemplo, na atenção básica de saúde. Lembrando que a Genética é de todas as especialidades da Medicina a que avançou mais rápido nos últimos anos, trazendo o maior hiato de conhecimento para a grande maioria dos médicos brasileiros, que se formaram há mais de 10-20 anos e foram treinados apenas para o que chamamos hoje de “genética tradicional”;
  • Formação de um número maior de Residentes em Genética Médica, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste;
  • Auxiliar o processo de Auditoria das Operadoras de Saúde Suplementar para a correta e justa indicação e autorização da realização de exames genéticos; Como “justa”, entenda-se justa para ambos os lados, Operadora e Usuário da Operadora;
  • Acompanhamento da oferta de medicamentos caros pelo Estado brasileiro para pessoas com doenças genéticas. O medicamento está realmente sendo ofertado? Em qual dose? Com qual periodicidade? Quais os efeitos sobre aquele paciente? Faz sentido a manutenção do medicamento para aquele paciente? Imaginem quanto poderia ser economizado ao Estado brasileiro!!
  • Apoio por parte dos Médicos Geneticistas ao judiciário nas decisões sobre a oferta de tratamentos para pessoas com doenças genéticas, tornando as decisões mais rápidas, justas e respaldadas por especialistas que realmente entendem destas questões.
  • No auxílio ao diagnóstico de doenças fetais, visto que imagens com alta resolução de ultrassom obstétrico podem ser tele-transmitidas;
  • Apoio às maternidades no intuito de melhorar a qualidade e a eficiência no diagnóstico e notificação de nascidos com anomalias congênitas;
  • Apoio ao Programa Nacional de Triagem Neonatal no sentido de comunicação rápida com as maternidades e com os pais de quem já fez o “Teste de Pezinho” e o resultado deu alterado;
  • A instalação de Centros de Telemedicina Genética no Brasil permitiria a inserção no mercado de trabalho de centenas ou milhares de profissionais não-médicos, principalmente enfermeiros, biólogos, biomédicos, psicólogos que poderiam estar na outra ponta do atendimento, junto aos pacientes, apoiando e sendo orientados pelos Médicos geneticistas;
  • Monitoramento na própria casa, de pacientes com necessidades especiais, tais como aqueles com dificuldade de locomoção, tão comum entre os pacientes com doenças genéticas;
  • Para os pacientes e seus familiares as vantagens da Telemedicina iriam da conveniência e conforto de não precisar se deslocar a um centro terciário, até a redução de necessidades e custos envolvidos em longas viagens, assim como a redução do tempo de espera para atendimento;
  • Educação da população sobre Genética.
  • Alerta

    É natural que toda inovação tenha também seus pontos negativos e traga junto a sensação de medo, em especial porque sempre poderá ser usada para fins espúrios. Mas também é verdade que a sociedade organizada, democrática e ativa pode barrar intenções não tão republicanas. Não podemos banir o uso dos aviões porque alguns podem usá-los como armas mortíferas.

    Pontos sensíveis no uso da telemedicina incluiriam como os termos de consentimento informados seriam obtidos, como seria feita a remuneração dos envolvidos, como os dados sobre a saúde dos pacientes e de seus familiares seriam protegidos, como obter declaração por parte de todos os envolvidos a respeito de seus potenciais conflitos de interesses, entre outros. Cabe destacar que o CFM não foi omisso, mas também não se aprofundou nestes pontos em sua Resolução, o que não significa que estes tópicos sensíveis não possam ser melhorados, aprofundados e até particularizados para o atendimento de cada especialidade médica.

    Ao final, uma nota de caução: a nova Resolução do CFM ainda está em discussão entre os Médicos, nem sequer foi validada, e já existem Empresas substituindo, nas capitais, dezenas de médicos que atendiam presencialmente, por um único médico atendendo à distância, em cardiologia, especialidade que envolve emergência médica! Que não seja permitido pelo CFM o uso indevido e indiscriminado da Telemedicina em áreas onde há número suficiente de especialistas, não só gerando desemprego na classe médica, mas reduzindo a qualidade daquele atendimento que já era bem feito presencialmente!

    Que seja bem-vinda ao Brasil a era da telegenética! Que venha para somar e multiplicar, e não para subtrair e dividir! E que seja bem utilizada como ferramenta para busca da equidade!

    Salmo Raskin

    Quem faz Letra de Médico

    Adilson Costa, dermatologista
    Adriana Vilarinho, dermatologista
    Ana Claudia Arantes, geriatra
    Antonio Carlos do Nascimento, endocrinologista
    Antônio Frasson, mastologista
    Artur Timerman, infectologista
    Arthur Cukiert, neurologista
    Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião
    Bernardo Garicochea, oncologista
    Claudia Cozer Kalil, endocrinologista
    Claudio Lottenberg, oftalmologista
    Daniel Magnoni, nutrólogo
    David Uip, infectologista
    Edson Borges, especialista em reprodução assistida

    Eduardo Rauen, nutrólogo
    Fernando Maluf, oncologista
    Freddy Eliaschewitz, endocrinologista
    Jardis Volpi, dermatologista
    José Alexandre Crippa, psiquiatra
    Ludhmila Hajjar, intensivista
    Luiz Rohde, psiquiatra
    Luiz Kowalski, oncologista
    Marcus Vinicius Bolivar Malachias, cardiologista
    Marianne Pinotti, ginecologista
    Mauro Fisberg, pediatra
    Miguel Srougi, urologista
    Raul Cutait, cirurgião
    Roberto Kalil, cardiologista
    Ronaldo Laranjeira, psiquiatra
    Salmo Raskin, geneticista
    Sergio Podgaec, ginecologista

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Saúde

Uso de maconha prejudica a fertilidade, diz estudo

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O uso da droga foi associado a uma concentração significativamente menor de espermatozoides comparado com os não usuários

A cannabis é uma das drogas psicoativas mais utilizadas e os homens são os principais consumidores. (Victoria Bee Photography/Getty Images)

Alguns estudos já demonstraram que o consumo de maconha por homens afeta na movimentação dos espermatozoides, fazendo-os nadar em círculos, além de alterar formato e tamanho dos gametas. Agora, um estudo publicado em dezembro do ano passado no periódico Epigenetics mostrou como isso ocorre. Os resultados apontam para possíveis riscos reprodutivos associados ao uso da droga.

A cannabis é uma das drogas psicoativas mais utilizadas e os homens são os principais consumidores. O uso da maconha decai com a idade, mas ainda é representativo durante a idade reprodutiva.

Após avaliações, 24 homens, entre 18 e 40 anos, concluíram o estudo, sendo 12 deles usuários de maconha e os outros 12, não. Com as análises, foi identificado que o princípio ativo da cannabis, o tetra-hidrocarbinol (THC), provoca mudanças no DNA do espermatozoide. Além disso, o uso da droga foi associado a uma concentração significativamente menor de espermatozoides comparado com os não usuários.

Maconha e a fertilidade masculina

Paulo Gallo, especialista em reprodução humana e diretor médico do Vida – Centro de Fertilidade, explica que o espermatozoide carrega o DNA masculino que vai formar o embrião. Durante o processo de formação do gameta, qualquer substância no sangue vai agir sobre esse material.

Segundo o estudo, a interferência ocorre durante a metilação do DNA, que é o amadurecimento dele. Se alterado, ocorre uma fragmentação das moléculas. “Com moléculas mais quebradas, há menor capacidade de fertilizar um óvulo. Quando o homem usa maconha, as substâncias são absorvidas e vão para a circulação sanguínea. Pelo sangue, o THC chega às células produtoras de espermatozoides”, diz o especialista.

O estudo, porém, tem algumas limitações. Uma delas é que a amostra é pequena, o que impede generalizações. Outra é que há uma gama de fatores potenciais que podem afetar a metilação do DNA, mas que não foram considerados no estudo, como estilo de vida, condições físicas, dieta, qualidade do sono e consumo de álcool.

Quanto à concentração, o médico explica que, em condições normais, o ideal são 15 milhões de espermatozoides por mililitro, sendo que 30% deles devem ter boa morfologia e 32% boa motilidade, que é a capacidade de se mover e ter direção. Conforme o DNA dos gametas são afetados, essas características se perdem. Outro problema que pode decorrer do uso da maconha é a disfunção erétil, mais conhecida como impotência sexual.

Porém, o comprometimento da fertilidade é relativa. Alguns homens podem ter, naturalmente, concentrações maiores de espermatozoides, cuja produção é contínua. “Leva 72 dias para formar um espermatozoide. Em homens com produção ótima, mesmo que fume [maconha], não haverá problemas”, diz Gallo.

O contrário também é válido. “Homem com produção levemente deficiente, mas com limite inferior à normalidade, tem chance maior de ficar infértil se usar maconha”, afirma o especialista. Caso o homem queira ter filhos, o ideal, segundo Gallo, é ficar de três a seis meses sem consumir a droga “Geralmente, reverte, mas nem sempre.”

O estudo internacional aponta que ainda é incerto se as mudanças na metilação do DNA são capazes de passar do homem para os filhos. Gallo diz que “talvez” o processo cause mutações genéticas que são transmitidas para a geração futura.

Outros estudos veem pouca associação entre o uso de maconha por homens e mulheres e taxas de fecundidade. A maioria, porém, indica questões negativas. Uma pesquisa de universidades norte-americanas mostra que o tempo médio para concepção foi significativamente menor nas mulheres que usaram maconha regularmente do que para aquelas que nunca usaram a droga.

Soma-se a isso o fato de que a maconha diminui a libido e que, se o consumo se acumular ao longo dos anos, as consequências podem se agravar. Até mesmo usuárias ocasionais podem ter sua fertilidade reduzida devido à ovulação anormal.

Fonte Veja

 

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Saúde

Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo: destaques para evitar o problema

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O consumo excessivo de álcool sabota o corpo de diferentes maneiras. SAÚDE traz notícias e recados importantes sobre o assunto

O consumo excessivo de álcool afeta 4,2% dos brasileiros. (Foto: Dercilio/SAÚDE é Vital)

A Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo, que acontece dos dias 18 a 22 de fevereiro, deu seu pontapé inicial. E o mote da campanha é justamente jogar luz sobre o consumo excessivo de álcool, relacionado a 3 milhões de mortes no mundo só em 2016, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde. O mesmo documento mostra que 4,2% dos brasileiros sofre com transtornos relacionados a esse hábito nocivo.

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