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Onda fitness movimenta US$2 bi no Brasil e só cresce. Veja como aproveitar

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Diante das incertezas do cenário econômico brasileiro, negócios ligados ao setor fitness se reinventam para manter protagonismo

Cau Saad, personal trainer: o investimento de 180 000 reais para abrir um estúdio próprio foi recuperado em oito meses | Foto: Germano Lüders 28/01/2019 (Germano Lüders/VOCÊ S/A)

Os números mais recentes da Organização Mundial da Saúde sobre sedentarismo no Brasil são alarmantes: 47% da população não pratica o mínimo de atividade física recomendado pela instituição para manter-se saudável — 150 minutos por semana.

Se por um lado a informação é preocupante, por outro soa como música para um importante segmento da economia, o fitness. Embora ruim, a estatística demonstra um enorme potencial para quem atua nesse mercado.

Quando alguém decide adotar um estilo de vida mais saudável, não são beneficiadas apenas as academias. Diversos negócios saem ganhando, como os de nutrição esportiva (suplementos), tecnologia (monitores de condicionamento), moda (roupas e tênis para malhar) e até beleza (cosméticos específicos para esportistas).

Hoje, a indústria de atividades físicas movimenta 2,1 bilhões de dólares no Brasil — a receita é a maior da América Latina e a terceira das Américas. É verdade que, no ano passado, o país deixou o ranking dos dez que mais lucram com o fitness. Mas isso não significa que não haja oportunidades no setor, pelo contrário.

De acordo com o levantamento de 2018 da IHRSA, associação internacional de fomento ao universo de saúde e exercícios, há mais de 34 500 academias no Brasil, o que nos torna o segundo país do mundo com maior concentração de estabelecimentos do tipo, atrás apenas dos Estados Unidos. Juntos, esses espaços somam 9,6 milhões de clientes  apenas Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido têm números maiores no mundo.

O que está ocorrendo, diante do novo padrão de economia da classe média brasileira, é uma adaptação dos negócios, com maior diversificação.

Uma das mudanças mais significativas que o mercado enfrentou para se adequar à recessão foi o surgimento das academias de baixo custo. Franquias como Smart Fit e Bluefit, as duas maiores do segmento, consolidaram-se como modelo de negócio e já representam 13% das instituições de ginástica no país.

Com mensalidades que custam em média 100 reais e estrutura enxuta, elas seguem crescendo. A Smart Fit, que acaba de bater a marca de 2 milhões de clientes em mais de 550 unidades na América Latina, vem aumentando a oferta de aulas em suas unidades, com destaque para a dança.

Já a Bluefit fechou o ano com faturamento de 100 milhões de reais e planeja chegar a uma centena de endereços em 2019, além de expandir para a Argentina e a Colômbia.

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Enquanto isso, as mega academias, como Bodytech, Bio Ritmo e Companhia Athletica, objetos de desejo dos malhadores até metade dos anos 2000, reinventam-se para enfrentar a concorrência.

“As escolas de nicho, especializadas numa modalidade [como os estúdios de bike e corrida indoor, pilates, funcional, lutas e boxes de crossfit], muitas delas cobrando por aulas avulsas ou créditos-aula em vez de mensalidade, além das de baixo custo, tiraram muita gente das grandes e se tornaram uma fatia importante do mercado”, diz Raul Abissambra Filho, diretor executivo da Fitness Brasil.

Para ele, quem se mantém nas academias convencionais é sobretudo o público com poder aquisitivo maior, que aposta nelas até como um lugar para fazer networking e conhecer pessoas interessantes.

Mas a academia não é a escolha principal de quem faz atividade física — essa é a preferência de 28% dos praticantes, de acordo com números da IHRSA. A maior parte (41%) malha ao ar livre. Caminhada e corrida são as modalidades mais populares.

De alguns anos para cá, atividades de todo tipo, como funcional, ioga, dança e luta, também passaram a reunir grupos em parques, praças, escadarias, terraços de shopping e até helipontos nos fins de semana. E aí moram algumas boas oportunidades.

A personal trainer paulistana Cau Saad, de 39 anos, já tinha mais de 15 anos de uma carreira bem-sucedida como treinadora de atletas e endinheirados em São Paulo e nos Estados Unidos quando explodiu em 2013 com o circuito de treinamento funcional externo, que acabou virando seu principal produto.

A onda fitness que se espalhava pelas redes sociais à época ajudou, mas a formação sólida, a criatividade, o fôlego inesgotável e o talento empreendedor da profissional foram determinantes para que em pouco tempo as aulas-evento, com inscrições por volta de 80 reais na época, formassem fila de espera.

Três anos depois, Cau abriu as portas do estúdio próprio, o Instituto Cau Saad, nos Jardins, na capital paulista. O investimento de 180 000 reais foi recuperado em oito meses.

Hoje, além de oferecer sessões individuais, pelas quais cobra 250 reais a hora, a personal virou grife: fatura com linhas assinadas de acessórios de ginástica e sucos funcionais, além de manter contrato de exclusividade com marcas de tênis e roupas esportivas, das quais também recebe por postagens nas redes sociais e palestras.

As aulas ao ar livre abertas ao público ainda acontecem, mas com inscrições gratuitas, porque os patrocínios e as parcerias acabam cobrindo os gastos. A equipe dela hoje soma pelos menos 34 pessoas, entre professores e profissionais das áreas de finanças, assessoria de imprensa e assistência pes­soal.

Até o marido deixou o emprego como corretor de soja para integrar o time como administrador do negócio fitness. “Nada foi planejado, fui me adaptando à medida que as coisas foram acontecendo. E estou só começando”, diz Cau.

Olho no futuro

Um fator considerado relevante para esse segmento é o envelhecimento da população. O aumento da expectativa de vida dos brasileiros — hoje de 76 anos, segundo o IBGE — vem influenciando a área fitness.

Métodos e rotinas de treinamento focados em força, mobilidade e equilíbrio, visando a saúde, a autonomia e a prevenção de acidentes entre o público mais velho, são as principais tendências apontadas pelo American College of Sports Medicine (ACSM).

A população acima de 60 anos representa hoje 13% dos brasileiros, e a estimativa é que alcance 32% até 2060. Se malhadores idosos não chegam a 10% do público nas academias convencionais, na B-Active eles são maioria: 70%.

A rede, hoje com duas unidades próprias e dez franquias distribuídas entre São Paulo e Distrito Federal, nasceu há 15 anos como academia terapêutica voltada para a terceira idade.

Ali, não há velhinhos fazendo hidroginástica ou alongamento, e sim musculação e treinamento funcional focados no envelhecimento saudável ou em programas de prevenção e reabilitação de cirurgias ortopédicas.

Todos os atendimentos (cerca de 150 por dia em cada unidade) são acompanhados por fisioterapeutas especializados na faixa etária. Equipamentos, pisos e acessibilidade também foram pensados para a segurança e o conforto dos clientes.

Renata Chaim, Gisele Violim e Corina Godoy Cunha, da Pink Cheeks: faturamento de 3,8 milhões de reais com maquiagem para esportistas | Germano Lüders

O idealizador do negócio, o médico do esporte Benjamin Apter, viu o faturamento aumentar cerca de 80% nos últimos três anos. A procura por interessados em abrir uma franquia também cresceu — o investimento total sai por 770 000 reais, com retorno em dois anos, em média.

Mas Benjamin se mantém exigente na seleção de parceiros. “Além de necessidades físicas especiais, o idoso tem um comportamento de consumo próprio, quer ser bem tratado e é menos tolerante a erros, até por questão de saúde”, diz.

Manter o modelo de unidades pequenas e próximas do consumidor que pode pagar pelo serviço é outra preocupação que orienta a expansão da rede. A mensalidade média para treinar duas vezes por semana na capital paulista é de 500 reais. Em dez anos, Benjamin pretende ter 200 unidades da B-Active.

Os fabricantes de equipamentos de ginástica estão igualmente de olho nessa fatia do mercado e trabalham para desenvolver produtos que atendam às demandas dos mais maduros.

Recentemente, a norte-americana Life Fitness somou a seu portfólio os equipamentos da Scifit, marca de aparelhos adaptados para o público idoso.

“Eles têm design e ergonomia pensados para facilitar a acessibilidade [entrar e sair da máquina], trabalham grupos musculares sensíveis nessa faixa etária [como quadris e joelhos] e possuem níveis de resistência que permitem prática e evolução segura nos treinos”, afirma Pedro Goyn, diretor-geral da marca para a América Latina.

Entre os produtos há esteiras, bicicletas ergométricas, elípticos e aparelhos para trabalho localizado das partes superior e inferior do corpo.

Outro destaque da área é a tecnologia. O uso de dispositivos associados à rotina de atividade física está no topo da lista de tendências fitness elaborada anualmente pelo ACSM.

Relógios e pulseiras inteligentes (que registram dados de treino e saúde, como comportamento do sono e nível de açúcar no sangue) e fones de ouvido sem fio representam quase 95% do mercado de wearables (tecnologia vestível), de acordo com o International Data Corporation (IDC), que analisa as novidades tecnológicas.

E a procura por eles continuará subindo pelo menos até 2022, quando deverão atingir a marca de 190 milhões de unidades. “As pessoas querem, cada vez mais, monitorar o próprio rendimento”, diz Eduardo Netto, diretor técnico da rede de academias Bodytech.

Uma pequena prova disso é o sucesso do uso da gamificação nas aulas coletivas das academias. Ao sincronizar o dispositivo no pulso com um software de treinamento, o aluno acompanha em tempo real os próprios dados de treino (como velocidade, frequência cardíaca, gasto calórico) em um painel, o que ajuda a criar um ambiente de interação, competição e compartilhamento que pode ser estimulante para a experiência e o resultado da malhação. Alguns programas permitem montar times entre academias e treinar online com praticantes até fora do país.

Cosméticos para atletas

Foi a partir da dificuldade em encontrar produtos de beleza que atendessem às necessidades que tinham antes, durante e depois dos treinos de corrida que as amigas (e hoje sócias) Corina Godoy Cunha, Renata Chaim e Gisele Violim resolveram criar a própria marca de cosméticos para esportistas.

“Corina tinha melasma e queria um filtro que durasse na pele e não escorresse nem ardesse os olhos. Gisele sofria com bolhas nos pés, e eu tinha muitas assaduras. Não conseguíamos ficar satisfeitas com os itens que encontrávamos aqui e trazíamos muita coisa de fora”, diz Renata.

Foram pelo menos três anos de protótipos, erros e testes entre amigos e família até o lançamento da primeira linha da Pink Cheeks, em 2013, que contava com filtro solar, bastão antiassaduras, creme relaxante para pernas, lenços umedecidos e fluido que não deixa o cabelo embaraçar.

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A aceitação não foi imediata, até pela falta de marcas de beleza esportivas. Mas as redes sociais e a postagem de um dos produtos por uma influenciadora respeitada no meio da corrida fez o estoque esgotar no mesmo dia.

Daí, o trio ganhou fôlego para se estruturar de acordo com a profissão que cada uma exercia na época: Corina, farmacêutica, ficou responsável pelo desenvolvimento dos produtos; Renata, publicitária, pelo marketing; e Gisele, administradora, pelas áreas comercial e administrativa.

As vendas, inicialmente pelo e-commerce próprio e participação com estande em alguns eventos de corrida, ganhou reforço de cerca de 300 consultoras. Cinco anos depois, os produtos também estão em megastores como Decathlon e Centauro, além de lojas esportivas de nicho, redes de farmácias e lojas online de beleza.

O portfólio aumentou: são 60 itens, incluindo a linha de maquiagem Sport, lançada em 2017. No mesmo ano, a empresa foi destaque como marca indie na feira In-Cosmetics América Latina e, em 2018, ganhou o prêmio da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) na categoria melhor filtro solar.

A produção, antes terceirizada, agora tem indústria própria, em Leme, no interior de São Paulo, onde tudo começou. Em 2018, a Pink Cheeks alcançou faturamento de 3,8 milhões de reais e projeta aumento de 40% neste ano, com ampliação e lançamentos de linhas, como a unissex.

Se a área de beleza ainda engatinha no quesito fitness, a de suplementos esportivos já saiu das fraldas faz tempo. É a terceira maior do mundo e movimenta acima de 2 bilhões de reais, de acordo com dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Suplementos Nutricionais e Alimentos para Fins Especiais (Brasnutri) e da Associação Brasileira das Empresas de Produtos Nutricionais (Abenutri).

Das categorias de produtos, as proteínas respondem por 65% do consumo no país, seguidas pelos aminoácidos e energéticos (15% cada um) e hipercalóricos (5%).

Mariane Morelli, Alberto Moretto e Carlos Philipe Moretto, sócios da Supley: previsão de crescimento de 10% em 2019 | Ricardo Benichio

Segundo especialistas do setor, estima-se que só 10% das pessoas que praticam exercícios regularmente sejam adeptas desses suplementos. Há, portanto, espaço para crescer.

Na tentativa de abocanhar novos consumidores, a indústria não perde tempo. Aposta, entre outras coisas, na snackfication (em que as pessoas comem refeições fracionadas e saudáveis ao longo do dia), tida como a principal tendência de alimentação para 2019 pela consultoria internacional Euromonitor, e na onda vegana e natural, com produtos sem ingredientes de origem animal nem itens artificiais, como adoçantes, corantes e conservantes.

Além de já existirem empresas com DNA 100% vegano no setor de suplementação, como a recém-criada Mother e a W Vegan, as grandes vêm colocando em seu portfólio itens com esse perfil, com proteínas derivadas de ervilha, ­arroz e batata.

Uma delas é a Max Titanium, do laboratório brasileiro Supley. No primeiro semestre do ano passado, a fabricante comprou a Probiótica, então líder no segmento. Com isso, passou a ser a maior companhia de suplementos da América Latina, com 25% de participação no mercado e faturamento anual de 250 milhões de reais.

Alberto Moretto, CEO da Supley, aposta em lançamentos saudáveis, com foco no público fit­ness. A previsão de crescimento para 2019 é de 10%, bem acima do que projetam economistas para o Brasil. O país, com sorte, avançará 2,5%. Haja fôlego.

 

Fonte Exame

 

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Novo Mais Médicos vai priorizar Norte e Nordeste, diz ministro da Saúde

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Para definir os locais, o governo vai usar critérios como IDH, dificuldade de alocação de profissionais e tempo de permanência

São Paulo – O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o programa que vai alterar as regras do Mais Médicos e priorizar a contratação de profissionais para municípios do Norte e do Nordeste. Para definir os locais, o governo vai usar critérios como IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), dificuldade de alocação de profissionais e tempo de permanência.

“A prioridade do governo federal será garantir a presença nos chamados vazios sanitários. Nesses locais é onde vamos ter nosso olhar mais atento”, disse o ministro, após dar uma palestra em almoço do Lide na capital paulista, confirmando que Norte e Nordeste serão as regiões mais atendidas.

O governo prometeu para o primeiro semestre deste ano o envio de um projeto ao Congresso alterando o programa. Mandetta afirmou que, após o projeto, outra discussão que a Pasta deve fazer envolverá os critérios de contratação de médicos formados no exterior sem e revalidação do diploma no Brasil.

Fonte Exame

 

 

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Saúde

Vacina não causa autismo, novo estudo comprova

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O maior estudo já realizado sobre o assunto reforça que a vacina contra caxumba, rubéola e sarampo não aumenta o risco de autismo em crianças

Os pesquisadores não encontraram maior incidência proporcional do diagnóstico entre as crianças vacinadas e não vacinadas. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Em tempos de fake news, disseminação de grupos anti-vacina e epidemia de sarampo, notícias boas e confiáveis sobre o assunto são sempre bem vindas. Um novo estudo – o maior já feito sobre o assunto – acaba de comprovar que a vacina tríplice viral, que protege contra o sarampo, a caxumba e a rubéola, não causa autismo.

“A tríplice viral não aumenta o risco para o autismo, não desencadeia o autismo em crianças suscetíveis e não está associada ao agrupamento de casos de autismo após a vacinação.”, escreveram os autores do estudo.

Embora estudos anteriores já tenham mostrado que a vacina não está associada ao autismo, muitos pais insistem em não imunizar seus filhos – prejudicando não só estes, mas também outras crianças – com essa justificativa. Para acabar de uma vez por todas com esse mito disseminado por um charlatão em 1998, pesquisadores do Instituto Statens Serum, na Dinamarca, acompanharam por dez anos, 657.461 crianças nascidas no país entre 1999 e 2010.

A Dinamarca tem um programa nacional de vacinação gratuito e voluntário. Do total, 31.619 crianças não foram vacinadas e 6.517 receberam o diagnóstico de autismo.  Isso corresponde a uma taxa de incidência de 129,7 a cada 100.000. Os pesquisadores não encontraram maior incidência proporcional do diagnóstico entre as crianças vacinadas e não vacinadas.

“A comparação entre crianças vacinadas e não vacinadas produziu uma razão de risco de autismo de 0,93. Nenhum risco aumentado de autismo após a vacinação foi consistentemente observado em subgrupos de crianças definidas de acordo com a história de autismo dos irmãos, fatores de risco do autismo (com base em um escore de risco de doença) e outras vacinações ou durante períodos específicos após a vacinação”, afirma o estudo publicadona segunda-feira na revista científica Annals of Internal Medicine. 

Em entrevista à rede americana CNN, Paul Offit, diretor do Centro de Educação em Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia, afirma que a maior contribuição do estudo foi a avaliação de crianças com risco aumentado de autismo, como as que já têm um irmão com o diagnóstico.

Anders Hviid, líder do estudo e pesquisador do departamento de epidemiologia do Instituto Statens Serum acredita que o novo estudo oferece dados confiáveis e tranquilizadores ​​de que o vínculo entre vacina e autismo não existe.

O mito

O mito que associa vacinas e autismo surgiu de um estudo publicado em 1998 na revista científica The Lancet. O médico britânico Andrew Wakefield alegava, em seu estudo, que 12 crianças que eram normais até receberem a vacina tríplice viral se tornaram autistas depois de desenvolverem inflamações intestinais causadas pelo imunizante.

Depois da publicação, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos contra as infecções infantis, contribuindo para um aumento de casos de sarampo nos Estados Unidos e na Europa. Anos depois, uma reportagem publicada no periódico científico BMJ, feita pelo jornalista Brian Deer, mostrou que cinco das 12 crianças já tinham problemas de desenvolvimento, fato encoberto por Wakefield.

Várias pesquisas e investigações (britânica, canadense e americana) publicadas depois do controvertido estudo – que só levou em conta essa amostragem de 12 crianças – não encontraram qualquer correlação entre o aparecimento do autismo e a vacina tríplice. Em 2010, a revista médica britânica The Lancet, onde o estudo foi originalmente publicado, se retratou formalmente e retirou o artigo de seus arquivos. Wakefield também perdeu o direito de praticar medicina.

Apesar de todos os esforços da ciência e das autoridades de saúde, o estrago feito pelo artigo fraudulento de Wakefield permanece até hoje. “Os pesquisadores dos EUA concluíram que uma redução de 5% na cobertura vacinal triplicaria os casos de sarampo, com custos econômicos significativos para a saúde. Um dos principais motivos pelos quais os pais evitam ou estão preocupados com a vacinação infantil tem sido a ligação percebida com o autismo.”, disse Hviid.

Casos de sarampo têm aumentado em todo o mundo, em parte, pela não vacinação. A gravidade do problema fez com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) coloca a relutância ou a recusa em vacinar como uma das 10 principais ameaças à saúde global em 2019.

Dez países, incluindo o Brasil, foram responsáveis ​​por quase 3/4 do aumento total de casos da doença em 2018. O país aparece na 3ª posição com o maior número de casos. Até o dia 21 de janeiro, 10.302 casos da doença foram confirmados no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde.

Fonte Veja

 

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Saúde

O estranho caso da startup que coletava e vendia sangue de jovens

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A Ambrosia Health prometia vidas melhores e longevas a seus pacientes. Mas seus métodos foram questionados pela agência reguladora americana para a saúde

Doação de sangue: a Ambrosia Health atraiu quase 150 pacientes em seu último teste clínico (jat306/Thinkstock/Thinkstock)

Obter o sangue de pessoas mais jovens para ter uma vida melhor e longeva parece uma estratégia restrita às páginas do romance Drácula, de Bram Stoker. Mas foi também a promessa da startup americana Ambrosia Health — até que a regulação a parasse, no mês passado. No caminho, ficaram 140 clientes que compraram a vampiresca ideia.

A Ambrosia Health foi criada na Califórnia em 2017, pelo médico (graduado na Universidade de Stanford, mas sem licença para exercer a profissão, segundo o Business Insider) Jesse Karmazin. O fundador afirmou ao veículo que sua ideia poderia desafiar o envelhecimento, por meio do rejuvenescimento de órgãos a partir da infusão de sangue jovem em pacientes mais velhos.

A Ambrosia dependia de doações de sangue em bancos locais para operar. A partir de diversos sacos, era possível separar apenas o plasma, parte líquida do sangue, e vender injeções intravenosas. O tratamento custava de oito mil dólares (um litro) até 12 mil dólares (dois litros). A Ambrosia Health atendia regiões como Houston (Texas), Los Angeles (Califórnia), Omaha (Nebraska), São Francisco (Califórnia) e Tampa (Flórida).

Cerca de 140 pacientes haviam comprado a ideia até setembro de 2018, quando começou uma nova bateria de testes clínicos. Os estudos foram finalizados em janeiro deste ano e seus resultados não foram abertos ao público — mas Karmazin afirmou ao Business Insider que foram “muito positivos.”

Porém, não há evidência concreta de que as infusões de plasma de sangue jovem poderiam combater o envelhecimento. A ideia foi testada em ratos pela startup de longevidade Alkahest, por meio de uma técnica cirúrgica chamada parabiose. Ao trocar o sangue entre dois organismos vivos, a Alkahest apurou “benefícios cognitivos limitados”. Porém, o objetivo da startup é desenvolver medicamentos inspirados nos estudos com o plasma, e não simplesmente abrir uma clínica para injetá-lo em humanos, como é o caso da Ambrosia Health.

A Ambrosia se apoiava na aprovação da agência reguladora americana Food and Drug Administration de transfusões de sangue em caso de emergência — o que geralmente se refere a acidentes. Até que, em fevereiro deste ano, a FDA mandou um recado que parecia endereçado à startup.

“Não há benefícios clínicos comprovados da infusão de plasma de doadores jovens para curar, mitigar, tratar ou prevenir essas condições [envelhecimento], e há riscos associados com o uso de qualquer produto baseado em plasma”, afirmaram os agentes da FDA Peter Marks e Scott Gottlieb em comunicado conjunto.

Segundo a FDA, o plasma não é um tratamento adequado para envelhecimento, perda de memória e doenças como Alzheimer e Parkinson. As infusões estão associados a problemas como alergias, infecções e dificuldades cardiovasculares e respiratórias. Depois do comunicado, a Ambrosia Health interrompeu os tratamentos.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece critérios para a doação de sangue e alerta sobre as possíveis reações adversas às transfusões. Também publica manuais com orientações sobre, por exemplo, o transporte de bolsas de sangue. Não consta material, porém, que regule a validade científica das promessas de empresas que realizem tais procedimentos.

O problema das healthtechs

A ideia de combater o envelhecimento é uma moda na meca das startups, o americano Vale do Silício. Em 2012, o investidor Peter Thiel afirmou que “a morte é um problema que pode ser solucionado” e manifestou interesse na infusão de sangue jovem. A obsessão dos negócios inovadores da região de São Francisco com a imortalidade virou até piada na série de televisão Silicon Valley, com o guru Gavin Belson sendo seguido por um garoto doador de sangue. O citado experimento com ratos aqueceu o interesse pelo “plasma rejuvenescedor.”

Porém, o grande desafio para as startups focadas no segmento de saúde está em comprovar suas teses. “Mova-se rápido e quebre tudo”, mandamento adotado por muitos negócios inovadores e escaláveis, geralmente não pode ser replicado pelas healthtechs. Mesmo assim, dezenas delas publicaram pouca ou nenhuma pesquisa científica sobre seus métodos. O que não impede que o dinheiro dos investidores continue entrando, com 9,6 bilhões de dólares investidos em empresas americanas do setor no último ano.

O exemplo mais claro do problema dessa falta de comprovação científica se deu na Theranos. Sua fundadora, Elizabeth Holmes, parecia estar no topo do mundo há poucos anos. A empreendedora que abandonou o curso de engenharia química na Universidade de Stanford aos 19 anos de idade para fundar uma startup já foi considerada a mulher mais rica dos Estados Unidos por meio de fortuna própria. Mas a Securities and Exchange Comission (SEC), entidade que regula os mercados de capitais nos Estados Unidos, condenou a empresa de testes de sangue, Holmes e o ex-presidente Ramesh Balwani por uma “fraude massiva”.

A principal acusação é a de que os empresários teriam levantado mais de 700 milhões de dólares (na cotação atual, aproximadamente 2,3 bilhões de reais) de investidores por meio de uma “elaborada fraude que durou anos, na qual eles exageraram ou deram testemunhos falsos sobre a tecnologia da companhia, sobre o negócio e sobre a performance financeira.”

As falas da Theranos teriam levado investidores a acreditarem que o principal produto da startup – um teste de sangue portátil – poderia conduzir exames complexos com apenas algumas gotas, revolucionando a indústria de testes sanguíneos. Mas, de acordo com o relatório da SEC, o equipamento só poderia completar um número pequeno de exames.

A popularização posterior de startups como a Ambrosia Health mostra que, apesar dos esforços dos reguladores americanos, o desejo dos consumidores pela solução mais fácil de problemas de saúde, mesmo que incorreta, está longe de terminar.

Fonte Exame

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